Apologia ao filho que eu queria ter

quarta-feira, 23 de abril de 2008

A alguém (in)satisfeito com seu rebento

Míseros sonhos despedaçados pelas estradas torpes em que passei. Destruídas todas as pontes, não vejo mais como chegar ao outro lado. Só consigo contemplar o horizonte alheio. A projeção de mim na figura de um homem que conheci há pouco, que se protege com as armas da lei das amarras de meus desejos mal disfarçados.

Menino levado correndo por um campo aberto em dia de chuva. Pés descalços, sujo de lama a esperar ansioso pela chegada do pai. Braços abertos em dia que não tem fim. E a imagem cresceu comigo juntamente com as frustrações que não quis para ele. Menino levado sentado a estudar. Alta patente, gente importante, rolex balançando douradamente no pulso orgulhoso do pai. Como na música de Toquinho e Vinícius, canto o filho que eu queria ter.

Mas de tudo isso o que restou? Sombras de um destino que me legou a felicidade ao mesmo tempo próxima, mas de poder de outro. O filho que eu queria ter não pertence a mim nem me chama de pai quando o telefono para desejar feliz aniversário. E quando retorna à cidade não dorme em minha casa, não come da comida que faço, não me dá o prazer que sentem seus seguranças de estar a todo tempo a seu redor.

E de tudo isso o que restou? A vontade camuflada em atitudes cruéis ou tantas vezes indiferentes que alimento para com o rebento que me sobra. Tento manter o controle, fingir, não admitir para mim mesmo que não existe, senão em outrem, uma parte de mim. Cala-se de novo a voz. Dorme estranhamente de novo tudo. Que tudo vire sonho e que venha a realidade para eu aprender a dominá-la como faço com meu mundo. Tenho tudo, faltam o nada e a esperança.

Por Inês Guimarães - vivendo dias mais ocos ainda

3 comentários:

lobo-branco disse...

Uma caminhada sepulcral ao que resta da tua trajetória, doravante, inominada, ó indivíduo despido de esperanças... Ou quem sabe as terá, quando a contemplar os dois frutos percebidos e acalentados pelas águas de uma tempestade de procedência desesperada e mal calculada, enquanto descansa a cabeça, não mais aturdida, nas alvas e melancólicas nuvens do Paraíso...
Porém, este ainda não é o momento. A dura realidade é insofismável. Resta-lhe, indubitavelmente, a possibilidade de os sonhos, durante o teu descanso cálido nas breves noites, ofertarem a ti um brinde em homenagem ao que não ocorreu e que, contudo, poderia ter ocorrido. E estas brumas escarlates projetadas por tua mente escorder-vos-iam, tu e a teu espelho rechaçado, cuja imagem projetada tão distante ao pisares em terra, far-se-ia legítima e alcançável por tuas mãos, que carinhosamente desceriam sobre o rosto do reflexo dourado, sobre a tês desprovida das rugas provocadas pelos óbices pertencentes aos comuns e desinteressantes. Dorme, pois, ó ser sofrido, e sonha, ao menos uma vez mais, com esta que poderia ter sido tua relíquia em vida, entretanto transformada, apenas, numa perseguição irrequieta e impossibilitada em realidade.

Jan disse...

o_o

Bom ver gente escrevendo...!

Ines disse...

Lobo, vc conseguiu traduzir bem mais perfeitamente o que eu pretendia dizer. Maravilhoso!