Sobre ontem e as seqüelas

segunda-feira, 12 de maio de 2008

Ontem. Dia das mães. Dia triste, no qual as circunstâncias ficaram implícitas na solidão contínua da morosidade costumeira do domingo. Não adiantaria pedir perdão pela minha ausência, porque ela não acontece de fato, apenas projeta-se em meu silêncio de palavras feias. Ontem, mais do que qualquer outro dia das mães, mais do que qualquer outro dia seja qual fosse, senti sua falta. Senti falta de acordar de manhã bem cedo e preparar um café e levá-lo com uma rosa a florescer, e escrever coisas bonitas em um cartão bonito e entregar um presente bonito. Coisas que, se um dia fiz, não me recordo. Senti falta do abraço e da conversa e do sorriso. Falta de estar junto, simplesmente. De estar ao lado e ouvir uma música ou apenas ficar em silêncio, mãos dadas, cúmplices. A saudade nunca gritou tanto, nunca ocupou tantos espaços da casa vazia, nunca sugou tanto as minhas forças. Ontem foi um dia singular, porque senti sua morte outra vez. Não como a sinto todos os dias, mas como senti naquele dia 14 de agosto de 1997, quando insanamente dei voltas pela casa, sem pensar, sem compreender, sem me dar conta do que viria depois. Sentimento em sua mais pura essência, vivo, escorrendo, vibrando, pulsando forte.

O dia das mães já é ontem. Mas o ontem deixou seqüelas. Eu que sempre reclamei atenção agora não consigo ouvir. E eu com isso?, é só o que consigo pensar. Perdi o interesse. Não vejo sentido nas coisas que falam. Será que são as coisas que estão sem sentido? Alguém ri de algo idiota. Iguala-se e não me vê. É ele o idiota? Irrita-me tanta irritação interna. Precisa sair, vulcanizar, extrapolar as fronteiras de mim. Eu não caibo mais em mim. Acho que essa frase não é minha. Mas o que importa? É exatamente isso que foi dito agora. Nada disso tem importância. Tudo vai seguir tortamente o fluxo da vida e acabar de forma brusca em algum quarto podre, escuro e solitário. Danem-se as coisas, danem-se os pensamentos elevados. Eu odeio gente arrogante, gente prepotente, gente áspera. São ressequidos como o solo que levou meu espelho. Tolos, são todos tolos e estúpidos, incapazes de perceber. Por que não me percebe? Não sei o que Jim Morrison pensava quando embriagado cantava “people are strange, when you´re stranger faces look ugly when you´re alone”. Mas a música me reflete, simboliza e incorpora o meu sentir. Pseudo-sentires. Fracos e impessoais. Não entendeu que nada disso me importa mais? Não consegue ver que meus olhos faíscam perante a imutabilidade desse querer saber, ter, dizer que quer e que sabe e que tem?

Sinto-me mais leve. Ou menos pesada. Ou menos cheia de tormento. Ou menos. Ou mais. Ela me irrita. Tudo que o envolve que não esteja ligado a mim me irrita. Contradições. Tépida, cálida. Gosto de palavras proparoxítonas. Elas sempre parecem dizer mais do que realmente dizem. Mãos. Ultimamente tenho atentado-me a elas. Vontade de pegar. De fazer carinho. Simples carinhos. Simples mãos. Simples simples. Tudo meu parece simples. Acho que porque não existe de fato. Impensamentos. Isso existe? O ato de não-pensar engrandece porque nos torna capazes de inviver quando se quer. Ser capaz de não se ser, na hora em que não vale a pena se ser. Precisava disso. De uma tarde dedicada às minhas imprecisões porque elas têm sido muitas. Muitas e cada vez mais imprecisas.
Por Inês Guimarães, sobrevivente de mais um desses domingos

2 comentários:

Anônimo disse...

impossível ficar impassível diante de um texto belíssimo e emocionante como este.

fico a me perguntar se há necessidade mesmo de palavras para descrever isto que sinto agora. anseio que não.

prefiro acreditar que esta impossibilidade é parte da sequela que um certo domingo deixou inscrito nas letras cálidas de uma certa pessoa.

parabéns inês!

parabéns muitooco, por mais uma pérola distribuída em pratos fundos no ciberespaço.

sigamos...

abraços, luís osete.

Germano V. Xavier disse...

O Osete falou por mim, Inês.

Sempre...