À espera ( ou o que se faz quando o dia acaba sem grandes explicações)

terça-feira, 24 de junho de 2008


Madrugada fria de junho. Prenúncio de inverno disfarçado em insensibilidades. Inverno cinza, com leves tons amarelados do sol que insiste em sair, mesmo por trás das nuvens.

Não se tinha muito a fazer. Mente vazia de fim de domingo, página em branco, música tocando alto para esquecer. Música tocando alto e fazendo lembrar. A voz embargada do cantor não condizia com o estado de espírito que se desejava alcançar. Arrastava-se por uma melodia suave e letra patética. Xícara de café fumegando, tentando aquecer o ambiente. Não queria aceitar, mas esperava por algo. Esperou durante toda a imensidão entorpecente do fim de semana. Espera vã. Não queria aceitar, mas esperava por algo que não veio.

“Temos tendência a acreditar que o trem sempre irá passar e nos levar ao outro lado. O trem, o cavalo branco ou o que for. Mas algo tem que passar e nos levar ao outro lado”.

Falou em voz alta como se quisesse justificar para si mesma as horas de inquietação. Lembrou-se da música americana que dizia algo do tipo “atravesse para o outro lado” e confortou-se com as palavras do poeta morto, que só confirmava seus pensamentos, por mais infundados que parecessem ser.

Era magra, um terço de culpa, dois de sentimentos que não sabia nomear. Alguém assim não poderia ocupar muito espaço. Poucas palavras e uma vastidão a desbravar através do olhar. Olhar de sol poente. Gestos curtos, mas expressivos. Sorriso largo e fácil a enfrentar tempestades. Estava sentada a horas na mesma posição, em uma cadeira sem grande conforto, mas sua. Ignorava o sono e prolongava a espera. “O quanto ainda terei de ver passar até chegar a minha vez de ir adiante?” Não conseguiu ouvir a resposta, abafada pelo silêncio impaciente da noite que se despedia apressada. E continuou sentada, pernas cruzadas, pés descalços a sentir o piso gelado. Pensamento vagando perdido, página ainda em branco... continuava, mesmo sem se dar conta, a esperar.

Inês Guimarães

5 comentários:

Jan disse...

Depois da tempestade...

Jan disse...

Ah, sim, e quando perguntam, "está tudo bem"...
¬¬

Culpa? CULPA? Eu li bem?

Elenilson Nascimento disse...

Olá, estou aqui para convidá-lo a conhecer a LITERATURA CLANDESTINA:
http://literaturaclandestina.blogspot.com/
Conto com a sua presença por lá . Um abraço Elenilson

Paty disse...

Meu Deus, que foto ridícula. Ela nem ta oca... tira isso leo!

Cris disse...

Gostei :)