Texto perfil: Manuca Almeida

terça-feira, 19 de agosto de 2008


De poeta e louco todo mundo tem um pouco


Ator, cantor, compositor, poeta são algumas das palavras que caracterizam as facetas de Emanuel Gama de Souza Almeida. Mais conhecido como Manuca Almeida, artista juazeirense, natural de Aracaju, começou sua história no incrível mundo da poesia, ou como melhor ele define, na loucura.

Filho de paraibano com sergipana, Manuca veio pra Juazeiro/BA e adotou a cidade como sua terra natal. Em 1978 declamava poesias pelas ruas da cidade. “Sou um falso baiano, isso é triste”, admite Manuca, mas fala também que toda sua energia vem da cidade terra de João Gilberto, cantor e compositor, iniciador da Bossa Nova, aclamado por muitos e louco para outros muitos. Com Manuca também aconteceria o mesmo, buscava inspiração na poesia concreta, onde nas loucuras das palavras desse movimento de “idéias abstratas” expressava seus sentimentos. Partindo do ponto concreto do movimento em que a poesia deveria ser um objeto visual, simultaneamente lida e vista, as performances da sua poesia sempre vinham acompanhadas de um jeito expressivo e particular que impunha nas palavras e gestos, causando ao mesmo tempo estranheza para uns e admiração para mais alguns.

Sempre com novas formas de declamar a palavra, juntou-se ao movimento alternativo e marginal dos poetas de rua de Salvador e São Paulo, passando a recitar em praças, bares, ônibus, teatros. Seus poemas são estampados em camisas, bottons, quadros, cartões, calcinhas, sedas.

Poetizando milhares de palavras ao longo de seus 30 anos de carreira , Manuca ultrapassa as barreiras da monotonia da pacata cidade juazeirense e chega aos ouvidos do Brasil e do mundo. Seja na poesia, na produção teatral, na música, na produção de livros ou outras peças midiáticas, ele inventa e voa num mundo de sonhos e realidades, traduzindo sua arte para várias linguagens.

“Eu venho do tempo do mimeógrafo a álcool. Eu sou velho!”, suspira Manuca sobre seu tempo de dedicação a arte das palavras. Mas não é o que diz a sua alma com jeito descontraído, sua roupa poeticamente colorida ou seu colar de boneca de pano. A poesia deve ser mais vivida do que sentida e trinta anos é pouco para as muitas palavras escritas e não ditas ou para as faladas, mas não escritas, ambas registros ou meros devaneios de uma mente louca ou de um simples poeta buscando explanar sobre seus sentimentos, porque como diria um tal poeta ou filósofo, de poeta e louco todo mundo tem um pouco. É só tentar.


Leônidas Vidal

À espera ( ou o que se faz quando o dia acaba sem grandes explicações)

terça-feira, 24 de junho de 2008


Madrugada fria de junho. Prenúncio de inverno disfarçado em insensibilidades. Inverno cinza, com leves tons amarelados do sol que insiste em sair, mesmo por trás das nuvens.

Não se tinha muito a fazer. Mente vazia de fim de domingo, página em branco, música tocando alto para esquecer. Música tocando alto e fazendo lembrar. A voz embargada do cantor não condizia com o estado de espírito que se desejava alcançar. Arrastava-se por uma melodia suave e letra patética. Xícara de café fumegando, tentando aquecer o ambiente. Não queria aceitar, mas esperava por algo. Esperou durante toda a imensidão entorpecente do fim de semana. Espera vã. Não queria aceitar, mas esperava por algo que não veio.

“Temos tendência a acreditar que o trem sempre irá passar e nos levar ao outro lado. O trem, o cavalo branco ou o que for. Mas algo tem que passar e nos levar ao outro lado”.

Falou em voz alta como se quisesse justificar para si mesma as horas de inquietação. Lembrou-se da música americana que dizia algo do tipo “atravesse para o outro lado” e confortou-se com as palavras do poeta morto, que só confirmava seus pensamentos, por mais infundados que parecessem ser.

Era magra, um terço de culpa, dois de sentimentos que não sabia nomear. Alguém assim não poderia ocupar muito espaço. Poucas palavras e uma vastidão a desbravar através do olhar. Olhar de sol poente. Gestos curtos, mas expressivos. Sorriso largo e fácil a enfrentar tempestades. Estava sentada a horas na mesma posição, em uma cadeira sem grande conforto, mas sua. Ignorava o sono e prolongava a espera. “O quanto ainda terei de ver passar até chegar a minha vez de ir adiante?” Não conseguiu ouvir a resposta, abafada pelo silêncio impaciente da noite que se despedia apressada. E continuou sentada, pernas cruzadas, pés descalços a sentir o piso gelado. Pensamento vagando perdido, página ainda em branco... continuava, mesmo sem se dar conta, a esperar.

Inês Guimarães

Sexta-Feira em CRISE

quarta-feira, 28 de maio de 2008


Durante o evento Curta na Uneb, no DCH III, será exibido nessa sexta-feira (30/05) o vídeo CRISE. Uma produção independente e de carater experimental produzido pelos alunos de jornalismo da UNEB, Cecílio Bastos, Leônidas Vidal e Patrícia Telles.

Crise é ambientado no Vale do São Francisco, região de passado extrativista e presente consumista. Dentro de um ambiente decadente e apocalíptico, desenvolve-se o humano borrão, com coreografias que se constroem como fenômenos imaginéticos. Acidentes, falhas e descontinuidades num limite entre realismo cotidiano e surrealismo. Um estágio de alternância, no qual uma vez transcorrido, diferencia-se do que costumava ser.

O curta será exibido no Canto de Tudo, a partir das 18h, antes da exibição dos vídeos produzidos pelos alunos da disciplina Laboratório de Vídeo-Arte, ministrada pela professora Fabíola Moura, responsáveis pela organização da terceira edição do Curta na Uneb.


Assistam e entrem em CRISE!

Sobre ontem e as seqüelas

segunda-feira, 12 de maio de 2008

Ontem. Dia das mães. Dia triste, no qual as circunstâncias ficaram implícitas na solidão contínua da morosidade costumeira do domingo. Não adiantaria pedir perdão pela minha ausência, porque ela não acontece de fato, apenas projeta-se em meu silêncio de palavras feias. Ontem, mais do que qualquer outro dia das mães, mais do que qualquer outro dia seja qual fosse, senti sua falta. Senti falta de acordar de manhã bem cedo e preparar um café e levá-lo com uma rosa a florescer, e escrever coisas bonitas em um cartão bonito e entregar um presente bonito. Coisas que, se um dia fiz, não me recordo. Senti falta do abraço e da conversa e do sorriso. Falta de estar junto, simplesmente. De estar ao lado e ouvir uma música ou apenas ficar em silêncio, mãos dadas, cúmplices. A saudade nunca gritou tanto, nunca ocupou tantos espaços da casa vazia, nunca sugou tanto as minhas forças. Ontem foi um dia singular, porque senti sua morte outra vez. Não como a sinto todos os dias, mas como senti naquele dia 14 de agosto de 1997, quando insanamente dei voltas pela casa, sem pensar, sem compreender, sem me dar conta do que viria depois. Sentimento em sua mais pura essência, vivo, escorrendo, vibrando, pulsando forte.

O dia das mães já é ontem. Mas o ontem deixou seqüelas. Eu que sempre reclamei atenção agora não consigo ouvir. E eu com isso?, é só o que consigo pensar. Perdi o interesse. Não vejo sentido nas coisas que falam. Será que são as coisas que estão sem sentido? Alguém ri de algo idiota. Iguala-se e não me vê. É ele o idiota? Irrita-me tanta irritação interna. Precisa sair, vulcanizar, extrapolar as fronteiras de mim. Eu não caibo mais em mim. Acho que essa frase não é minha. Mas o que importa? É exatamente isso que foi dito agora. Nada disso tem importância. Tudo vai seguir tortamente o fluxo da vida e acabar de forma brusca em algum quarto podre, escuro e solitário. Danem-se as coisas, danem-se os pensamentos elevados. Eu odeio gente arrogante, gente prepotente, gente áspera. São ressequidos como o solo que levou meu espelho. Tolos, são todos tolos e estúpidos, incapazes de perceber. Por que não me percebe? Não sei o que Jim Morrison pensava quando embriagado cantava “people are strange, when you´re stranger faces look ugly when you´re alone”. Mas a música me reflete, simboliza e incorpora o meu sentir. Pseudo-sentires. Fracos e impessoais. Não entendeu que nada disso me importa mais? Não consegue ver que meus olhos faíscam perante a imutabilidade desse querer saber, ter, dizer que quer e que sabe e que tem?

Sinto-me mais leve. Ou menos pesada. Ou menos cheia de tormento. Ou menos. Ou mais. Ela me irrita. Tudo que o envolve que não esteja ligado a mim me irrita. Contradições. Tépida, cálida. Gosto de palavras proparoxítonas. Elas sempre parecem dizer mais do que realmente dizem. Mãos. Ultimamente tenho atentado-me a elas. Vontade de pegar. De fazer carinho. Simples carinhos. Simples mãos. Simples simples. Tudo meu parece simples. Acho que porque não existe de fato. Impensamentos. Isso existe? O ato de não-pensar engrandece porque nos torna capazes de inviver quando se quer. Ser capaz de não se ser, na hora em que não vale a pena se ser. Precisava disso. De uma tarde dedicada às minhas imprecisões porque elas têm sido muitas. Muitas e cada vez mais imprecisas.
Por Inês Guimarães, sobrevivente de mais um desses domingos

Armas químicas e poemas de amor

sexta-feira, 9 de maio de 2008

Naquela tarde, só queria que me olhasse
Mas nem eu tive coragem de olhar
Se você conseguia perceber alguma coisa
Queria, então, apenas um beijo
Holocausto em mim
É difícil te esquecer
Por mais que eu tente, as lembranças permanecem aqui
Como cortes em carne viva
Como bomba atômica em constante explosão
Isso tudo dentro de mim, e por causa de você
Parece que estou em uma guerra constante
E tudo isso não cabe mais em mim
Arma química consumindo meu ser
Consumindo o tempo e não vivendo
É tudo em mim, ah cadê você?
Destruindo meu viver
Dando fim ao início de todo esse tormento
Atormentando-me no inicio de meu fim.


Poema feito em mais uma noite construtiva de MSN, por quatro (ou oito) mãos nervosamente tocadas por algo oco. Por Inês Guimarães, Leônidas Vidal, Patrícia Telles e a participação oca e especial de Ludmillie de Castro.



TEMPOS

domingo, 27 de abril de 2008

Tempo de descobertas. Naquele ano eu não fui apenas a menina calada que costumava ser. Descobri a saída de meu mundo até então restrito a um punhado de pensamentos e desejos intocados. Tudo por uma revistinha da turma da Mônica que inocentemente se pôs em meu caminho. E o que aconteceu daí em diante minha memória persiste em reacender todos os dias.

Tempo de vida. De vida nova. De compreender que a essência humana não se limita a sentimentos torpes e que em meio à repugnância de atitudes ignóbeis foi possível existir um lugarzinho acolhedor, onde apenas se ria sobre a calçada de cimento cru, embaixo de uma jovem árvore a desafiar o sol juazeirense. E se ria por tudo. Ou por nada. Do quadrúpede que passava sorrateiro pelas ruas amarelas de paralelepípedos quebrados, do silêncio que se fazia intruso nas madrugadas escuras e frias de calor humano, da avó que saía trôpega a reclamar da felicidade por não tê-la conhecido em sua plenitude como via acontecer ali, diante de suas frustrações.

Tempo de novas estradas. Estradas percorridas com os pés descalços sob a teimosa chuva de verão de um dezembro que não quis passar. Estradas eternizadas pelas marcas rápidas de uma Honda Biz azul que sempre chegava aos gritos anunciando a música saída de um violão mal tocado. Sempre os mesmos acordes e o mesmo inglês torto. E ainda assim a magia do lugarzinho seguia intocável, entre pratos de miojo e potes de sorvete com leite condensado, entre palavras ditas sem pudor e gravadas no tronco da árvore.

Tempo de saudade. O lugarzinho continua ali, mas hoje não é mais acolhedor. A rua chora vazia uma saudade que não consegue compreender. As presenças que a povoavam tornaram-se lembranças de um tempo que ficou em mim, que ajudou a me fazer como sou agora. Tempo de eterna saudade cantada na letra de Caetano: “eu marquei demais ‘tou sabendo. Aprontei demais só vendo. Mas agora faz um frio aqui”.
Inês Guimarães

Apologia ao filho que eu queria ter

quarta-feira, 23 de abril de 2008

A alguém (in)satisfeito com seu rebento

Míseros sonhos despedaçados pelas estradas torpes em que passei. Destruídas todas as pontes, não vejo mais como chegar ao outro lado. Só consigo contemplar o horizonte alheio. A projeção de mim na figura de um homem que conheci há pouco, que se protege com as armas da lei das amarras de meus desejos mal disfarçados.

Menino levado correndo por um campo aberto em dia de chuva. Pés descalços, sujo de lama a esperar ansioso pela chegada do pai. Braços abertos em dia que não tem fim. E a imagem cresceu comigo juntamente com as frustrações que não quis para ele. Menino levado sentado a estudar. Alta patente, gente importante, rolex balançando douradamente no pulso orgulhoso do pai. Como na música de Toquinho e Vinícius, canto o filho que eu queria ter.

Mas de tudo isso o que restou? Sombras de um destino que me legou a felicidade ao mesmo tempo próxima, mas de poder de outro. O filho que eu queria ter não pertence a mim nem me chama de pai quando o telefono para desejar feliz aniversário. E quando retorna à cidade não dorme em minha casa, não come da comida que faço, não me dá o prazer que sentem seus seguranças de estar a todo tempo a seu redor.

E de tudo isso o que restou? A vontade camuflada em atitudes cruéis ou tantas vezes indiferentes que alimento para com o rebento que me sobra. Tento manter o controle, fingir, não admitir para mim mesmo que não existe, senão em outrem, uma parte de mim. Cala-se de novo a voz. Dorme estranhamente de novo tudo. Que tudo vire sonho e que venha a realidade para eu aprender a dominá-la como faço com meu mundo. Tenho tudo, faltam o nada e a esperança.

Por Inês Guimarães - vivendo dias mais ocos ainda

SEM PALAVRAS

quarta-feira, 16 de abril de 2008

Meu silêncio grita. Grita silencioso a explicar palavras sem explicações. Fala por mim numa verborragia infinda que não se limita a breves impressões, que vai além do que é possível dizer com meras palavras que não sei usar, ou que saem sem sentido numa profusão de asneiras incompreensíveis.

Meu silêncio esbraveja. E quem não o reconhece entre as palavras subtendidas no silêncio velado ignoram uma porção de mim. Talvez eu por vezes o tenha ignorado em seus mais agudos gritos por sentimentos indefinidos, por sentimentos que eu teimo em não reconhecer. Ignorado-o em meus acessos de palavras desnecessárias.

Silêncio. Uma pausa incômoda permeia o ambiente. Dois pontos no ar e nada mais depois. Reticências. O barulhinho da mosca interrompe o manifesto. Atrapalha e grita ao seu modo. Palavras ocas. Asas debatendo-se contra sua existência silenciosa.

E?
Caras de irritação a olhar meu silêncio. Não conseguem chegar ao fim. Desistem diante da mesmice, da falta de, do excesso de. Não tentam. E o silêncio mantém-se a gritar por mim.
Texto de Inês Guimarães, vivendo dias ocos...

DIA OCO

segunda-feira, 14 de abril de 2008

13 de abril. O sol ainda é tímido quando o som do despertador anuncia mais um longo e monótono domingo. “Ruas de algodão e seus postes de feijão. Vejo do meu jardim longe do chão”*. No pequeno aparelho ao alcance de minhas mãos, as mesmas músicas psicodélicas, familiares para o dia da semana, com as quais dormi na madrugada anterior.

Já é noite. Passaram-se quarenta horas desde que acordei esta manhã. “Tenho andado tão longe do chão”*. E o pequeno aparelho continua a tocar as mesmas músicas alucinógenas, de letra e melodia estranhas que se encaixam em mim.

“Chove frio, bom para ir ver o mar, ou pra chegar do outro lado do rio”*. Pensei o dia inteiro que o trecho não se adequava à ocasião. O sol quente do sertão baiano ocultou as nuvens da chuva que só chegou nesse instante e caiu no ritmo da batida branda da canção que me perseguiu por todo o tempo.

Não sei escrever. Não sei traduzir em palavras o que tenho vontade de fazer. Não consigo traduzir em gestos o que tenho vontade de fazer. Não sei mais o que tenho vontade de fazer. Apenas caminho. “Já não tenho olhos para dormir nem um só segundo pra sonhar”*. Como não? Passo todo o tempo fazendo isso. Nada mais que isso. “Sempre inventando um bom jeito de inventar”*. Não sei por que essa música me encantou desde a primeira vez que a ouvi... Talvez ela diga nas entrelinhas coisas sobre mim.

Queria falar do Supercordas e das músicas que passei todo o dia ouvindo, tentando fazer delas uma inspiração, tentando fazer da minha admiração uma inspiração. Mas não consegui. Mais uma vez não consegui. Vou dormir pensando como poderia fazer sem fazer. Mais uma coisa adiada. Tantas coisas adiadas. Sentimentos adiados, atitudes adiadas. “Me dê a sua mão pra atravessar cirros e os nimbos”*. Por que não dizer? Uma vida adiada? Para que? Até quando? Há uma finalidade, decerto. Talvez ainda implícita em minha falta de atitude e excesso de pensamentos que não passam de pensamentos.

Lá vou eu mais uma vez (pela milésima vez mais uma vez) dormir. Deixando de lado coisas que eu queria ter feito, pessoas e conversas que eu queria ter tido. “Todas as estrelas tão difíceis de se alcançar brilham tão suaves, mas não deixam de brilhar”*.

Inês Guimarães

*Trechos de músicas dos Supercordas (Sobre o frio, Longe do Chão e O céu que você vê), banda carioca que recomendo. Apenas uma sugestão.

Impasses do fotojornalismo

domingo, 30 de março de 2008

Um clique. Narrativa visual espetacular. “Operador da fragmentaridade”. Seria, então, um retrato da realidade ou uma manipulação digital a arte de fotografar? Arte! Esse nome pode remeter um momento único, em que um fotógrafo imortaliza um acontecimento importante da história, como também, ao meu pensar, pode representar um aspecto manipulador. Como lutar pela valorização do fotojornalismo numa sociedade em que a tecnologia, cada vez mais, nos dar subsídios para a arte da manipulação?

Antigamente, os fotojornalistas utilizavam máquinas analógicas. Os recursos eram poucos, as fotografias eram precárias, porém, não passavam de uma simples retratação da realidade. Hoje, com o avanço desenfreado das imagens digitais e sua praticidade, pairam dúvidas sobre a credibilidade dessa profissão. É muito fácil transformar uma foto real em algo do desejo do público. Não quero, assim, desmerecer o fotojornalismo, afinal a profissão vem ganhando espaço e adquirindo maturidade.

Foi no jornal inglês, Daily Mirron, em 1904, que foi publicada a primeira fotografia. Daí em diante, o público leitor passou a ter um tratamento especial frente à notícia. Essa valorização visual promoveu uma demanda maior de fotógrafos de imprensa. Atualmente, o público não consegue imaginar como seria uma informação sem que seja acompanhada da fotografia, visto que ela representa um “casamento” que complementa a notícia. O fotógrafo passa a ser o criador de uma narrativa visual, que hoje é imprescindível ao jornalismo, ganhando autonomia e reconhecimento.

O fotojornalismo vive um impasse entre satisfazer o interesse público ou o interesse do público. Anos atrás, os fotógrafos “aspiravam a exprimir, através da imagem, os seus próprios sentimentos e idéias de sua época. Rejeitavam a montagem e valorizavam o flagrante e o efeito de realidade suscitado pelas tomadas não posadas, como marca de distinção de seu estilo fotográfico”. Atualmente, como tudo que se submete ao sistema capitalista, o fotojornalismo atua também como um mercado.

Mas continuemos a crer num poema que diz: A pessoa, o lugar, o objeto / estão expostos e escondidos / ao mesmo tempo só a luz / e dois olhos não são bastante / para captar o que se oculta / no rápido florir de um gesto / É preciso que a lente mágica / enriqueça a visão humana / e do real de cada coisa / um mais seco real extraia / para que penetremos fundo / no puro enigma das figuras / Fotografia – é o codinome / de mais aguda percepção / que a nós mesmos nos vai mostrando / e da evanescência de tudo / edifica uma permanência / cristal do tempo no papel / Das luas de rua no rio / em 68, que nos resta / mais positivo, mais queimante / do que as fotos acusadoras / tão vivas hoje como então / a lembrar como a exorcizar? / Marcas de enchente e do despejo / o cadáver inseputável / o colchão atirado ao vento / a lodosa, podre favela / o mendigo de Nova York / a moça em flor no Jóquei Clube / Guarricha e nureyev, dança / de dois destinos, mães-de-santo / na praia-templo de Ipanema / a dama estranha de Ouro Preto / a dor da América Latina / mitos não são, pois são fotos / Fotografia: arma de amor / de justiça e conhecimento / pelas sete partes do mundo / a viajar, a surpreender / a tormentosa vida do homem / e a esperança a brotar das cinzas.
(Carlos Drummond de Andrade, em Diante das fotos de Evandro Teixeira)

Por Patrícia Telles

Poeminha Concreto Muito OCO: BARROCO

sábado, 29 de março de 2008

Barroco
Bach* Rouco
Bar Oco


(*Pronuncia-se Bá - Johann Sebastian Bach - músico)


Inês Guimarães

Enriqueça sua cultura geral

quarta-feira, 26 de março de 2008


E agora algo completamente diferente:

• Nenhum habitante do Egito Antigo chamava sua terra de Egito Antigo

• Um samurai é muito diferente de um samovar

• Édipo foi o vencedor das Para-Olimpíadas de Tebas em 429 A.C.

• A gigantesca lagosta azul da Nova Zelândia nasceu em Carapicuíba, São Paulo

• Durante a Inquisição Espanhola, os fósforos custavam uma fortuna

• Ingmar Bergman e Ingrid Bergman não eram a mesma pessoa. Peter O’Toole e Vanessa Redgrave são

• Os primeiros aviões de Santos Dumont chamavam Demoiselle, Pinta e Nina

• Vincent Van Gogh não ouvia nada que Marcel Marceau falava

• Ao contrário de Oscar Niemeyer, Ramsés II só virou múmia depois de morto

Edson Aran (cronista do Blônicas)

Contabilidade da sua vida

domingo, 16 de março de 2008




Comercial da National Geographic sobre o que você faz da vida,será que é perda de tempo tudo isso que fazemos?

3 anos sentados no vaso sanitário?
12 anos na frente da TV?
E o pior, 19 dias procurando o controle remoto?

Você realmente já pensou nisso?

Se tem algo que faltou no vídeo, comente aqui.

Identidade...

terça-feira, 11 de março de 2008


"Confiante na ilusória promessa de sua vida, o americano não se preocupa com o seu presente, não vive plenamente a sua vida presente e esta se esvai sem ser propriamente vivida por ele.(...) No fim de sua vida, pensa Ortega, o homem americano se vê confrontado com a dolorosa experiência de que a vida tenha passado sem tê-la vivido, sem advertir sequer seu passo concreto. Não se trata, contudo, de simples tomada de consciência de uma sensação de fracasso, pois para assistirmos ao seu fracasso é necessário que a estejamos vivendo. Conclui Ortega que "o crioulo não vive a sua verdadeira vida, mas que ela tem passado sem que ele se dê conta, vivendo a outra, a vida prometida. Por isso, quando chega à velhice e olha para trás, não encontra a sua vida, porque não passou por ele, aquela que não viveu, e encontra somente um rastro dolorido e romântico de uma existência que não viveu. Encontra, pois, o vazio, o OCO de sua própria vida³".
Comentando a reflexão de Ortega y Gasset¹, assim analisa Raul Fornet-Betancourt²
¹ José ORTEGA Y GASSET. “La Pampa... promessas”. In: Obras Completas, citado por Raul FORNET-BETANCOURT, Problemas Atuais da filosofia na Hispano-america, São Leopoldo, Editora Unisinos, 1993.

² Raul Fornet-Betencourt. Problemas Atuais da filosofia na Hispano-america, São Leopoldo, Editora Unisinos, 1993.

³ Desdobrando as reflexões de Ortega, Betancourt afirmará em 1993 que tanto a verdade da América, como o modo de ser americano, consistem em sua própria mentira. A rigor, o ser e a verdade da América aparecem como problemas, porque não são o que aparentam ou o que pretendem ser. Seu ser é o não-ser e, sua verdade, a mentira. (...) O ser da América é o não ser de sua utopia, e sua verdade, a mentira de seu sentido inventado.

A evolução? De quem mesmo?

quarta-feira, 5 de março de 2008

Esse aí não é oco não! Tá cheio, mas de m....
Mídiaaaaaaaaaaaaaa

Quando se perde a sombra

terça-feira, 26 de fevereiro de 2008



A humanidade saiu da cama em que estava com sua parceira(o). Pulou do estado explosivo e ofegante do prazer para o pós-orgia. Agora toda superprodução está a nossos pés, mas não sabemos o que fazer. E continuamos produzindo, ou melhor, reproduzindo.
Os terráqueos se tornaram máquinas reprodutoras. Reproduze-se política, sexo, forças produtivas, forças destrutivas, mulheres, crianças, inconscientes, arte. Vive-se na reprodução indefinida de ideais, de fantasmas, de imagens, de sonhos que há tempos ficaram para trás. Caminhamos no vácuo, porque parece, que até aqui, esgotaram-se todas as possibilidades de liberação. Já não há vanguarda artística, sexual nem política com uma possibilidade de crítica radical.

Quer um exemplo prático? Antes da presidência, Lula representava a esperança revolucionaria desta nação. Prefiro não comentar o resultado. Mas e agora? Quem após o fim de seu mandato representa algo, no mínimo, exótico para este país?


Coisas continuam a funcionar ao passo que a idéia delas já desapareceu há muito. E o paradoxo é que elas funcionam melhor ainda. A produção mundial de automóveis, por exemplo. Hoje, não se produz carros para o seu destino – pessoas. A industrialização de veículos está destinada à venda. Não importa se o produto vai ser vendido ou não. O importante é reproduzir. Outro exemplo é o sexo. Alguém aí acredita que a essência do sexo ainda está viva? Eu almejo que sim. Os seres tecnológicos, as máquinas, os clones, as próteses, todos eles estão transformando os seres humanos em protozoários. A evolução(?) sucumbiu o conceito de sexo, de transa, de prazer, de desejo. Todas as tentativas atuais, entre as quais a pesquisa biológica de vanguarda, tende para o aperfeiçoamento do ser assexuado imortal em detrimento do sexuado mortal. Na época da liberação sexual, a palavra de ordem foi “o máximo de sexualidade com o mínimo de reprodução”. Atualmente, o sonho de uma sociedade clônica seria o inverso: o máximo de reprodução com o mínimo possível de sexo. E a AIDS parece ser uma das grandes ferramentas de manutenção desse novo sistema, instaurando a confusão elementar da epidemia.


O sexo não está mais no sexo, mas em toda parte. Assim como o político, que já não está no político, mas infectando todos os domínios. Cada área por assim dizer expande-se no seu mais alto nível e se generaliza, perde sua idéia, sua sombra. Quando tudo é político, nada mais é político, e a palavra já não tem sentido. Quando tudo é sexual, nada mais é sexual, e o sexo perde toda a determinação. Quando tudo é estético, nada mais é belo nem feio, e a própria arte desaparece.


Cecílio Bastos (ou Ricardo)

A máfia do “Guaraná”

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2008


“Vivemos esperando, dias melhores, dias de paz, dias a mais, dias que não deixaremos para trás!... Vivemos esperando, o dia em que seremos melhores, melhores no amor, melhores na dor, melhores em tudo!...”. Foi ao som de Josta Quest, viajando em uma tarde de sexta-feira, que eu e minha família fomos abordadas: “Parem! Passem tudo o que vocês têm, dinheiro e jóias. Bora, bora! Passem a grana, senão...”. Aí muitos pensam: foi um assalto! É, amigos ocos, foi uma tentativa de assalto! Só que as palavras não foram essas que citei logo acima.
Então, vamos lá. Dois policiais militares, um aceno com a mão e lá estávamos nós parados na estrada. Foram poucas as palavras, suficientes para nos deixar perplexos. “De onde estão vindo? Estão indo pra que cidade?” Crentes de que era apenas isso, já nos preparávamos pra seguir viagem, quando um dos policiais falou seriamente: “Me dê aí o do guaraná pra gente não perder muito tempo”! Aí me lembrei de quando fui para Salvador, de quando fui para o Recife. Não escapei em nenhuma dessas. Mas sempre me surpreendo... Sempre há algo de novo. Uns são mais contidos, outros mais descarados. Alguns até preferem acreditar que isso faz parte de seu “trabalho”, talvez pra se livrar da auto-condenação.
De quem é a culpa de tudo isso? Quem comete o crime? Será que é quem pede?! Ou quem paga?! O cidadão tem o dever de cumprir a lei e o policial de fazê-la cumprir. Mas a procura de facilidades, vinda da própria natureza humana, é que banca todo esse esquema de corrupção. É, somos nós cidadãos, com nossa descrença de dias melhores, que alimentamos esse tipo de crime. É uma conivência velada. Uma reciprocidade. “Me ajeite, que eu lhe ajeito”. É assim que funciona. Uns podem até dizer: “Ah, isso acontece por conta do péssimo salário que recebem”. Se fosse assim, todo assalariado seria ladrão! Na verdade, a corrupção é questão de ética social, que deveria ser prezada diante das mais diversas imposições sofridas.
Patricia Telles

Fidel renuncia. E agora, Cuba?

terça-feira, 19 de fevereiro de 2008




Foram 49 anos no poder. Inabalável por todo esse tempo, não lhe faltou ousadia para enfrentar sozinho e de peito aberto o capitalismo e a maior potência mundial. Tacharam-lhe de ditador. E talvez o tenha sido se analisarmos cuidadosamente a trajetória de Fidel Castro diante de Cuba desde a Revolução Comunista de 1959. O mundo o repreendeu e, liderado pelas forças americanas, fechou-se ao redor de Cuba.

19 de fevereiro de 2008. Em carta publicada no Granma, jornal do Partido Comunista Cubano, Fidel anuncia que não voltará a assumir a presidência, pondo fim a uma era alternada entre atentados, crises econômicas e surpreendentes níveis de saúde e educação. 81 anos, vencido pelo que denomina como um de seus maiores inimigos, Fidel já havia transferido os poderes presidenciais a seu irmão Raúl Castro desde julho de 2006.

A pergunta que não quer calar: Cuba continuará nos padrões Fidel? Não tardou para surgirem propostas de democratização. Em primeiro plano, cheio de boas intenções com o sofrido povo cubano, o todo-poderoso George W. Bush anunciou que os Estados Unidos ajudarão a transformar o sistema político da ilha, talvez como fizera com o Afeganistão. Não muito atrás, países da União Européia declararam apoio às reformas, “tratando de dar tranqüilidade ao povo cubano”, como pronunciou o governo espanhol.

E agora, Cuba?



Inês Guimarães (de novo, rsrsrsr)

Ó Lula indo




As viagens do carismático presidente oco da República Federativa do Brasil não de hoje geram comentários e já viraram até livro. Apenas como dado curioso, somente nos três anos iniciais de sua primeira administração, ele realizou simplesmente 85 viagens. Para quem acha um número pequeno em relação à quantidade de dias, foi o quase o dobro das idas e vindas de FHC no período entre 1994 e 1998. E ainda o satirizávamos chamando-o de “Viajando Henrique Cardoso”. Inteligentemente, os repórteres Eduardo Scolese, da Folha de São Paulo, e Leonencio Nossa, de O Estado de São Paulo, aproveitaram que tinham como função cobrir o Palácio do Planalto, acompanharam o digníssimo em suas excursões e traduziram a experiência no livro Viagens com o Presidente.

Mas não é para fazer propaganda do livro que me manifestei. Recentemente vi estampado nos principais jornais, ou como manchete dos noticiários televisivos, a presença do excelentíssimo na Antártida. Tal notícia deixou-me inicialmente intrigada. Não que o continente gelado não mereça a presença do presidente, até porque lá existe uma base brasileira. Intrigou-me o motivo de ele estar lá, com a figurante mais famosa do país ao lado, figurando como sempre e envolta em caríssimas roupas térmicas. Na verdade não foi o motivo, foi a falta de. Desses jornais aos quais tive acesso, nenhum conseguiu esclarecer o que realmente ele foi fazer lá. Encantou-se com a vastidão de gelo, falou algumas frases de efeito do tipo “já me considero antártico”, comeu salada de bacalhau crocante e medalhão ao alho guarnecido com legumes salteados no azeite e arroz com brócolis, prometeu (como bom político não poderia deixar de fazer) mais investimentos na Comandante Ferraz e depois de cerca de duas horas voltou temendo o mau tempo, sem se esquecer de pedir no passaporte o carimbo desenho do pingüim.

Enquanto isso o Brasil fervia em denúncias de corrupção, na possível CPI do cartão corporativo, nas discussões do projeto de transposição, em violência, insegurança, gastos excessivos no Congresso... e lá vai o Lula de novo.


Inês Guimarães

Rádio-teatro apresentado na disciplina Radiojornalismo II, no curso de jornalismo da UNEB - DCH III (Juazeiro-BA). Uma produção cheia de mistério que vai deixar você com o coração na mão. Escute, opine, dê muita risada e se assuste.

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